Quem sou eu

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Campinas, São Paulo, Brazil
Psicólogo Clínico Junguiano com formação pela Unicamp, terapia corporal Reichiana, Hipnoterapeuta com formação em Hipnose Ericksoniana com Stephen Gilligan.E outras formações com Ericksonianos: Ernest Rossi, Teresa Robles, Betty Alice Erickson. Formação em Constelação Familiar Sistémica pelo Instituto de Filosofia Prática da Alemanha. Uma rica e inovadora terapia divulgada em toda Europa. Professor de Hipnoterapia, além de ministrar cursos de Auto-conhecimento como Eneagrama da Personalidade e Workshop de Constelação Familiar Sistémica em todo o Brasil. Clínica em Campinas-SP. Rua Pilar do Sul, 173 Chácara da Barra. Campinas-SP F.(19) 32950381

Uma relação de ajuda

Como é bela, intensa e libertadora é a experiência de se aprender a ajudar o outro. É impossível descrever-se a necessidade imensa que têm as pessoas de serem realmente ouvidas, levadas a sério, compreendidas.
A psicologia de nossos dias nos tem, cada vez mais, chamado a atenção para esse aspecto. Bem no cerne de toda psicoterapia permanece esse tipo de relacionamento em que alguém pode falar tudo a seu próprio respeito, como uma criança fala tudo "a sua mãe.
Ninguém pode se desenvolver livremente nesse mundo, sem encontrar uma vida plena, pelo menos...
Aquele que se quiser perceber com clareza deve se abrir a um confidente, escolhido livremente e merecedor de tal confiança.
Ouça todas a conversas desse mundo, tanto entre nações quanto entre casais. São, na maior parte, diálogos entre surdos.
Paul Tournier.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Sete Minutos depois da meia noite.

Fantasia infanto-juvenil ganha vida em filme tristíssimo de J. A. Bayona
J. A. Bayona, diretor espanhol do terror O Orfanato e do suspense baseado em fatos O Impossível, assina a adaptação para o cinema do romance O Chamado do Monstro, de Patrick Ness.

Resultado de imagemNele, Conor - um garoto velho demais para ser uma criança e jovem demais para ser um homem - passa por um momento crítico: sua mãe tem uma doença terminal. A situação exige mudanças, já que ela está cada vez menos apta para cuidar dele, seu pai ausente não pode acolhê-lo e a avó, com quem ele provavelmente terá que morar, é uma estranha. Pra piorar, todo dia de aula é uma tortura nas mão de três valentões.

Cada vez mais fechado em seu próprio e imaginativo mundo, o menino começa a ter pesadelos horríveis com a mãe, até que surge um Monstro na sua janela. Uma árvore colossal que cria vida e promete-lhe três histórias em troca de uma quarta. O drama fantástico imediatamente lembra clássicos do gênero como Onde Vivem os Monstros e A História Sem Fim, ambos sobre crianças enfrentando dramas de crescimento com amigos imaginários. No entanto, pelo teor bastante dramático, a adaptação aproxima-se mais de O Labirinto do Fauno, do amigo e espécie de mentor de Bayona, Guillermo del Toro.

O longa começa um tanto arrastado e a qualidade dos efeitos inicialmente não é das melhores. Conforme a história se desenvolve, porém, o jovem Lewis MacDougall, que vive Conor, começa a brilhar, apoiado pelas excelentes Sigourney Weaver e Felicity Jones - e a produção parece ter começado os efeitos pelo final, já que as cenas do monstro ficam nitidamente melhor acabadas.

Liam Neeson faz a cavernal voz da criatura e narra a história sobre a complexidade da natureza humana e consequências. As histórias são animadas como se fossem em aquarela - algo que tem um significado especial no filme - e são todas belíssimas. Mas é o espetáculo do monstro do meio para o fim que realmente desperta a imaginação e encanta, tanto pelo impacto visual como pelo significado, tristíssimo mas cheio de otimismo, que deve encontrar ressonância em qualquer um que já tenha sonhado enquanto criança.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Câncer


Parar para ouvir e oferecer ajuda são formas de lidar com pessoa com câncer


 Qual você acha que é a pergunta mais comum feita a uma pessoa que tem ou teve câncer? Se pensou: "Como você está?", acertou.
Mas, mesmo que essas palavras pareçam carinhosas, normalmente não ajudam e podem até ser prejudiciais. Em uma comemoração familiar um ano depois do meu tratamento contra o câncer, uma parente distante me perguntou exatamente isso. Respondi: "Estou bem". Ela continuou: "Mas como você está de verdade?"
"De verdade" eu estava bem, disse a ela. Mas e se não estivesse? Será que ia querer começar a desfiar informações médicas ruins no que deveria ser um evento divertido? Será que eu queria ser lembrada que tive um câncer? Embora a parente com certeza tivesse boa intenção, a maneira como ela expressou sua preocupação me pareceu invasiva.
Um diagnóstico de câncer pode dar um nó na língua de amigos e familiares ou levá-los a fazer comentários inapropriados, apesar de bem-intencionados. Algumas pessoas que não sabem o que dizer simplesmente evitam o paciente de câncer por completo, um ato que pode ser mais doloroso do que falar ou fazer algo errado.
Um livro recém-lançado, "Loving, Supporting, and Caring for the Cancer Patient" ("Amar, Apoiar e Cuidar do Paciente de Câncer", em tradução livre), de um homem que foi tratado de um câncer potencialmente fatal e que aconselhou dezenas de outros que lidam com a doença, fez-me pensar sobre as melhores maneiras de falar com a pessoa que precisa encarar o câncer –seu diagnóstico, tratamento e consequências. O autor do livro, Stan Goldberg, é um especialista em comunicação, professor emérito de distúrbios da comunicação na Universidade Estadual de São Francisco.
Aos 57 anos, Goldberg descobriu que tinha um tipo agressivo de câncer de próstata. Ele disse em uma entrevista que os pacientes de câncer muito frequentemente encontram pessoas que assumem o papel de líder da torcida, dizendo coisas como "Não se preocupe", "Você vai ficar bem", "Vamos lutar contra isso juntos", "Eles vão encontrar a cura".
No entanto, "Palavras de otimismo podem funcionar no curto prazo, mas com o tempo acabam levando o paciente a sentir culpa se o câncer for mais virulento e derrotar os esforços da pessoa", afirmou ele.
"Estava lidando com a possibilidade de a minha vida terminar em breve ou, se isso não acontecesse, de ela mudar dramaticamente. O falso otimismo só desvalorizava o que estava se passando com o meu corpo. As pessoas são insensíveis, não por falta de compaixão, mas porque não sabem o que realmente ajuda", afirmou ele.
O que ele e aqueles a quem aconselhou descobriram ser mais útil não eram palavras, mas ações; não fale "Diga-me se eu puder ajudar", que coloca o peso sobre o paciente, mas o "Vou trazer o jantar para sua família nesta semana. Qual o melhor dia para você?".
Como um autodenominado "sujeito independente", relutante a pedir ajuda a qualquer pessoa, Goldberg contou que seu filho lhe ensinou uma lição importante.
"Ele veio a minha casa quando estava me recuperando de uma cirurgia e falou: 'Pare de levantar essas caixas, pai. Faço isso para você'."
Outra autora de livros muito úteis sobre a vida com câncer é a doutora Wendy Schlessel Harpham, que teve um câncer recorrente por mais de duas décadas. Ela explica que as pessoas devem sugerir maneiras específicas de ajudar. Podem, por exemplo, oferecer-se para fazer as compras, cuidar das crianças, levar o cachorro para passear ou acompanhar o paciente ao médico e, claro, cumprir a oferta.
Muitas pessoas hoje usam sites como o caringbridge.org para manter as pessoas atualizadas sobre sua saúde e necessidades ou organizam plataformas como a mealtrain.com ou a lotsahelpinghands.com para pedir uma ajuda específica.
Wendy Harpham diz que chegou a temer a pergunta "Como você está?", porque "não importa a intenção, essa questão mexia com a minha já imensa sensação de vulnerabilidade. "Eu me via consolando as pessoas que perguntavam e depois lutando contra o medo e o sofrimento contagiantes. Mesmo quando a notícia era boa, não tinha energia para incluir todas as pessoas que queriam saber."
Goldberg sugeriu que quando for visitar um paciente de câncer, a pessoa fale menos e ouça mais.
"Muitas vezes, o maior apoio vem de testemunhar silenciosamente o que uma pessoa com câncer está experimentando. Algumas vezes precisamos apenas uma presença calma e alguém ouvindo de modo incondicional. O silêncio se torna o espaço para respirar no qual as pessoas com câncer podem começar conversas difíceis", escreveu ele.
Em um artigo para a revista "Prevention" ("Prevenção", em traduçao livre), Melissa Fiorenza dá uma sugestão útil para o que dizer a alguém com quem você realmente se importa: "Tudo bem chorar comigo ou falar ou não dizer nada. Você é quem manda".
Ao conversar, disse Goldberg, "envolva-se mais nos assuntos e menos em interações com perguntas e respostas". Mas se perguntas forem feitas, elas devem ser abertas, como "Você quer me contar sobre seu câncer e sobre o que está passando? Talvez eu possa encontrar uma maneira de ser útil".
Entre as várias coisas que não devem ser feitas estão:
  • Não chame a atenção para as mudanças físicas do paciente dizendo coisas como "Pelo menos você finalmente perdeu aqueles quilinhos extras".
     
  • Não fale sobre outros pacientes com cânceres similares, mesmo que tenham se curado; dois cânceres não são parecidos. Tudo bem, no entanto, perguntar se o paciente gostaria de conversar com alguém que já passou pela doença.
     
  • Não diga que o paciente tem sorte de sofrer de um tipo de câncer e não de outro, o que minimiza o sofrimento pelo qual a pessoa está passando. Não há nada de sorte em ter câncer, mesmo que seja um câncer "bom".
     
  • Não diga "Eu sei como você se sente", porque você não pode saber. Melhor perguntar: "Você quer falar sobre como está se sentindo, como ter um câncer está afetando você?"
     
  • Não dê informações sobre tratamentos não comprovados ou médicos com credenciais questionáveis.
     
  • Não sugira que o estilo de vida da pessoa é responsável pela doença, mesmo que possa ter contribuído. A culpa não vai ser útil. Muitos fatores influenciam os riscos de câncer; mesmo para quem fumou a vida toda, ter câncer frequentemente é apenas falta de sorte.
     
  • Não pregue que o paciente deve pensar de maneira positiva, o que pode causar sentimentos de culpa se as coisas não correrem bem. Melhor dizer, "Estou do seu lado não importa o que aconteça", e realmente estar.
     
  • Não pergunte sobre o prognóstico. Se o paciente resolver falar sobre isso, não tem problema conversar sobre as implicações. Se não, melhor sufocar sua curiosidade.
     
  • Não sufoque o paciente com seu próprio sentimento de angústia, embora não tenha problema dizer: "Sinto muito que isso tenha acontecido com você". Se você está se achando sobrecarregado com a perspectiva de interagir com uma pessoa com câncer, melhor falar, "Não sei o que dizer", do que não dizer nada ou evitar a pessoa, que pode se sentir abandonada e pensar que você não se importa.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Calvário (Calvary)

Teoricamente, todo o conceito de sacerdócio da igreja católica, faz de seus padres símbolos de bondade, caridade e obediência divina. Infelizmente, a realidade é bem diferente. Dia após dia provas de inúmeros desvios de conduta daqueles que se dizem servos do senhor ganham os noticiários, sendo estes na maioria casos de pedofilia.


Na história de Calvário, conhecemos então o padre James, um sacristão verdadeiramente honesto, devemos ressaltar. Certo domingo, durante uma confissão, ele recebe um ultimato: vai morrer em sete dias (no próximo domingo para ser mais exato). Sua morte inocente pagará os pecados de outros padres culpados, algo justo para o suposto assassino, que quando foi vítima também era inocente.

Aproveitando então este polêmico pano de fundo, a obra tece uma relevante análise do comportamento moralmente decadente, depressivo e carente de significados de parte de nossa sociedade moderna. Um retrato mórbido de como o ser humano pode se perder pelo caminho de maneira irremediável, independente da esfera social ou clero que pertença, do abuso que tenha sofrido ou adversidade que tenha enfrentado.

Pois bem, diante da ameaça de morte, cada dia do padre James ganha mais valor. Conforme a semana passa, o mesmo continua fiel à suas habituais missões pessoais, e é assim que conhecemos os personagens do pequeno vilarejo irlandês em que a história acontece. Estas são pessoas amarguradas, sórdidas, solitárias, libertinas, arrogantes, perturbadas. Uma coleção de atributos forçosamente detestáveis e deprimentes, que exemplificam as vastas possibilidades da condição humana. E para o público, todos são prováveis suspeitos da tal ameaça de morte.

A direção e roteiro são de John Michael McDonagh, autor que tem no currículo o também atípico e transgressor O Guarda. Tecnicamente, Calvário se apoia na complexidade de seus personagens, todos cínicos e honestos na medida exata. A equipe de atores escalada para a produção é extraordinária, com destaque para Brendan Gleesson, interpretando o padre protagonista James. O experiente ator empresta sua forte personalidade para o irmão atribulado, passeando perfeitamente entre melancolia e uma espécie de humor dissonante, mas ainda sim funcional.

No final, Calvário não é uma obra especificamente de cunho religioso, nem sobre pedofilia ou perversidades irlandesas. Na verdade, este é um estudo visceral sobre a desilusão humana, uma concepção carregada de um fatalismo pragmático assustador. Existem alguns sinais de esperança no contexto, evidenciados pela tentativa de redenção da personagem Fiona, filha que James teve antes de optar pela batina. Mas no geral, a desconfortável mensagem que fica é algo como "bem-vindo a este inexorável círculo de confusão e dor... puxe uma cadeira". Recomendado.

por Ronaldo D'Arcadia

Calvário/ Calvary: 2014/ Irlanda, Reino Unido / 100 min/ Direção: John Michael McDonagh/ Elenco: Brendan Gleeson, Chris O'Dowd, Kelly Reilly, Aidan Gillen, Dylan Moran, Isaach De Bankolé, M. Emmet Walsh, Domhnall Gleeson

terça-feira, 27 de outubro de 2015

A Onda (Die Welle)

Baseado em uma história real, "A Onda" nos apresenta fatos sólidos de como uma ideologia pode impregnar valores e costumes de pessoas normais

Em 1967, em Palo Alto Califórnia, o professor de história Ron Jones fez um experimento com seus alunos: ele impôs uma ambientação do nazismo em sua classe, tudo seguia os padrões do partido. O projeto durou uma semana e causou diversos problemas. Anos depois, baseado na história de Jones, o autor Todd Strasser (sob o pseudônimo Morton Rhue), produziu o livro de ficção "A Onda", no qual este filme de Dennis Gansel se baseia. Mas o diretor também tomou suas liberdades poéticas com o tema, adaptando os eventos para dias atuais e transportando tudo para a Alemanha, onde a obra de Strasser é leitura obrigatória nas escolas.

No filme somos apresentados a Rainer Wenger (Jürgen Vogel), sujeito de personalidade forte e também ótimo professor. Logo no início, acompanhando os créditos, já podemos perceber toda rebeldia contida no indivíduo, que, enquanto dirige rumo ao trabalho, canta freneticamente a clássica "Rock 'N' Roll High School" dos Ramones. Ele estaria prestes a iniciar um pequeno projeto já tradicional da escola, em que cada professor aborda diferentes formas de governos em suas classes. 

Tendo a duração de apenas uma semana, a "brincadeira" se finaliza na sexta feira, quando vídeos são feitos, palestras e argumentos são expostos, e o tema é discutido, visando assim ampliar a compreensão dos alunos sobre o assunto em questão. Para Wenger, restam apenas os governos autocratas, como o nazismo e o fascismo. Ele então, meio de supetão, começa a já citada experiência visceral, que termina de forma trágica.
É muito interessante analisarmos um fato ocorrido nos EUA sendo adaptado para o cinema na Alemanha. Claramente, devemos relembrar a licença poética do diretor Gansel – também roteirista –, que transportou toda personalidade da juventude alemã, a forma de ensino e os costumes de seu povo, de forma brilhante para o tema.

O fascismo, nazismo, ou "A Onda" – como eles se autodenominam – se apresenta de forma envolvente, e isso é mostrado através da visão dos jovens que mais se afeiçoam ao sistema. Apenas os pontos positivos são relevados em um primeiro instante: todos se mostram mais obedientes em casa, respeitosos, melhoram a postura física em sala de aula, o que possibilita uma melhor circulação sanguínea e assim uma melhor pronúncia de sentenças, que devem ser curtas e coesas, proferidas de pé, e por aí vai. No filme, tudo isso ocorre de forma muito natural, não há discussão, o projeto é respeitado pelos alunos, que entram na onda.

E com essa união os excluídos fazem amizades, são protegidos pelos seus iguais contra o inimigo comum (nesse caso, a turma que pegou o tema anarquia, que fica exatamente abaixo da sala deles). Os populares se sentem invencíveis e por aí vai novamente. Aparentemente tudo que os rebeldes querem é disciplina, pois em um mundo tão vazio de significados, fazer parte de alguma coisa, de alguma família,  pode ser perigosamente tentador.
Eles então se tornam reais, criam logo tipo, myspace, websites, adotam uniforme e um cumprimento padrão. Tudo isso a pedido do professor, que inicialmente encara de forma ingênua a transformação dos jovens, sem perceber que aquilo também está afetando seu comportamento. Mas afinal, qual o problema? Os pais dos garotos teceram elogios já nos primeiros dias, a diretoria apoiava a didática. E tudo ocorre muito rápido. Em uma semana A Onda nasce e morre.

Um dos personagens centrais do filme é Marco, interpretado por Max Riemelt. Marco é o soldado alemão perfeito: atleta, não é burro, mas não faz questão de ser mais do que isso. Ele namora a bela Karo, vivida pela jovem atriz Jennifer Ulrich. Karo é uma das mais inteligentes da turma, mas traz problemas pessoais típicos de jovens tentando se encontrar. Ela apresenta um comportamento sutilmente egocêntrico, caraterizado por um ar de irritante superioridade, e com o início da Onda, onde todos se saem bem, ela acaba sendo deslocada do grupo. 

Percebendo que aquilo não é uma coisa normal,  Karo se coloca contra a Onda, e é aí que todos os sentimentos se misturam, principalmente para o público. Todos sabem que este "ismo" é prejudicial, todos sabem que Karo está certa, mas sua personalidade, entendida como superior, unida a ingenuidade dos outros alunos, nos faz escolher lados, despertando então o fascista em todos nós. A relação de Karo e Ulrich é o termômetro para a platéia. É através deles que vemos como as coisas vão se afastando de uma brincadeira para algo sério.

E sendo talvez o mais simbólico personagem do filme, temos Tim Stoltefuss, interpretado por Frederick Lau. Tim é a vitima do "sistema", de todos eles. Garoto reprimido, vê na Onda o significado de sua vida, e começa a enlouquecer com isso – coisa que acontece às pencas por aí (entenda-se neonazistas e skinheads). Mas o drama no caso de Tim é tocante. Tudo que ele queria era fazer parte de um grupo, e isso A Onda lhe ofereceu. Nada poderia lhe tirar essa sensação.
Toda a equipe de atores é excelente, desde o time principal até os coadjuvantes. O diretor conseguiu tirar tudo deles, a entrega foi máxima, diria até perturbadora, mas sem credibilidade a obra seria em vão. Gansel acerta em praticamente todas suas escolhas na direção. Fotografia impecável, cenas bem estruturadas, texto profundo e bem argumentado. A edição é contemporânea, carregada de elementos pop, muitas cores. O vermelho que Karo resiste em usar diante do branco adotado por todos é simbólico e bonito de se ver.

No final, "A Onda" apresenta os primeiros passos na construção de algo imperfeito por natureza, pois apesar de toda sua evidente coesão como grupo, apesar de todas as melhorias percebidas (superficialmente) por pais e mestres, existe aquela fresta no sistema, a célula que muda tudo: a intolerância, a impossibilidade de A Onda viver sem o ódio e a segregação. O principal motivo do professor Wenger – assim como Jones na vida real – de iniciar este processo perigoso foi devido aos argumentos dos alunos que diziam não conseguir entender como tantos alemães foram coadjuvantes de algo tão terrível. A obra nos mostra que ideologias como essa estão acima de seu povo, e que, no final, todos acabam inocentados diante desta hipinótica corrente mental. Já esquecer é outra história.

Os últimos minutos do longa são com certeza seu ponto forte. O ator Jürgen Vogel se despe de forma inacreditável na cena em questão, proferindo falas inimagináveis. Acompanhando estes diálogos finais, todos os personagens despertam de um torpor, entendendo finalmente a ténue linha entre o que é certo e errado, o que é humano e o que é depravado. Agora, se você assistir tudo isso e não despertar... então está com problemas.
A Onda/ Die Welle: Alemanha/ 2008/ 107 min/ Direção: Dennis Gansel/ Elenco: Jürgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Christiane Paul
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domingo, 25 de outubro de 2015

Lore

"Lore" explora as crenças do alemão nazista no recente período pós-guerra. 
Conduzido e roteirizado de maneira impecável pela australiana Cate Shortland, "Lore" oferece um diferenciado ponto de vista sobre a Segunda Guerra Mundial, e mais especificamente sobre o nazismo.

A história conta a peregrinação da jovem alemã Lore, que após ser "abandonada" por seus pais - membros do partido de Hitler e fortemente envolvidos com os ideais do exército -, foi obrigada a atravessar parte da Alemanha em busca de refúgio, e isso levando seus quatro irmãos menores com ela, sendo um deles uma criança de poucos meses de vida.

Através de argumentos reflexivos, ofertados de forma bastante clara pela diretora Shorthland, podemos perceber a tênue linha que separava (na época) o fanatismo do nazista patriota, daqueles que apenas apoiavam seu país (e consequentemente seu Führer) em um conflito mundial. O povo alemão, que com o fim da guerra não pertencia a lugar nenhum - mesmo dentro de suas próprias casas -, observava incrédulo a verdade por trás das atrocidades de Hitler. Para muitos, aquele massacre divulgado por meio de fotos era uma mera montagem dos americanos. 

Mas para Lore tudo culminou em uma experiência perturbadora. A pobre garota simbolicamente representa a parcela da população alemã que, de certa forma, se mantinha (ou era mantida) alienada à guerra. A bela menina de olhos azuis, quando saiu para seu verdadeiro calvário, ainda era uma criança, que pensava não gostar de judeus porque seus pais assim lhe ensinaram - no entanto seus valores e sentimentos são fortemente testados quando a mesma é auxiliada por um sobrevivente dos campos. 

No final, descobrir e vivenciar todos estes podres de sua nação, durante uma trajetória exaustivamente cruel, e por um local que se tornara praticamente sem lei, foi algo intenso, doloroso e visceral. Altamente recomendado.

Lore: Alemanha, Austrália, Reino Unido/ 2012/ 109 min/ Direção: Cate ShortlandElenco: Saskia Rosendahl, Nele Trebs, André Frid, Mika Seidel, Kai-Peter Malina, Nick Holaschke, Ursina Lardi, Hans-Jochen Wagner

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sábado, 24 de outubro de 2015

Transtorno Orgástico Feminino

Transtorno Orgástico Feminino (anterior Orgasmo Feminino Inibido).
A característica essencial do Transtorno Orgástico Feminino, pelo DSM.IV, é um atraso ou ausência persistente ou recorrente de orgasmo, após uma fase normal de excitação sexual. De modo geral, as mulheres apresentam uma ampla variação no tipo e/ou na intensidade da estimulação que leva ao orgasmo. O diagnóstico de Transtorno Orgástico Feminino deve fundamentar-se no fato de que, nesse transtorno, a capacidade orgástica da mulher é menor do que se poderia esperar para sua idade, experiência sexual e adequação da estimulação sexual que recebe.

Para esse diagnóstico exige-se também que a perturbação esteja causando acentuado sofrimento ou dificuldade interpessoal. A Disfunção Orgástica é a queixa sexual feminina mais comum e pode ser mais freqüente nos primeiros anos de atividade sexual (ou do casamento).

A capacidade de ter orgasmos na mulher parece aumentar com a experiência sexual e aí se incluem as mulheres mais maduras. Aqui também os fatores psicológicos implicados são extremamente variáveis. Estes, vão desde os medos da perda de controle, medo de frustrar as expectativas do parceiro, falta de boa comunicação com o parceiro, depressão emocional, complexos íntimos e conflitos pessoais.

O orgasmo, também chamado de clímax, é a sensação de gratificação marcado por sentimento de repentino e intenso prazer que segue à um estado fisiológico de excitação sexual, é também seguido por um relaxamento das tensões sexuais e dos músculos do corpo.

Freud afirmava que as mulheres teriam dois tipos de orgasmo, o clitoriano, importante para o desenvolvimento sexual e, se exclusivo, poderia significar imaturidade, e orgasmo vaginal, uma decorrência do primeiro e muito característico de maturidade sexual. Inúmeros pesquisadores mais recentes evidenciaram que o orgasmo clitoriano é muito mais freqüente, surgindo tanto por manipulação quanto por penetração e que, sendo de boa qualidade, ou seja, satisfatório, não evidencia nem imaturidade, nem quaisquer outros eventuais problemas.

Já o orgasmo vaginal, menos freqüente, depende de fatores ligados ao desenvolvimento psico-sexual da mulher e da qualidade do relacionamento afetivo em questão. Talvez seja por isso que Freud julgava-o característico da maturidade sexual, menos impulsivo e mais sublime. Este tipo de orgasmo, por ser mais afetivo e menos anatômico, nem todas as mulheres podem ter, e as que têm, nem sempre o têm sempre. Pesquisadoras que já experimentaram os dois tipos de orgasmo consideram o tipo vaginal muito mais gratificante.

Apesar do orgasmo normalmente durar apenas alguns segundos, na maioria das vezes não mais de dez, depois disso a estimulação continuada pode produzir mais orgasmos adicionais na mulher. Portanto, elas são fisicamente capazes de ter orgasmos repetidos, sem a necessidade do tradicional período de recuperação necessário aos homens. Nestes, após um orgasmo não há mais resposta à estimulação sexual e não se consegue alcançar outra fase de excitação antes de decorrido um certo período de tempo.

Tendo em vista o fato da capacidade orgástica em mulheres aumentar com a idade, o Transtorno Orgástico Feminino costuma ser mais prevalente em mulheres mais jovens. A maioria dos sexólogos afirmam a necessidade de algumas mulheres "aprenderem" a ter orgasmo e, uma vez aprendido a atingir o orgasmo, tal como andar de bicicleta, uma mulher raramente perderá esta capacidade.

Está claro que os componentes emocionais do cotidiano, a qualidade de relacionamento com o parceiro, o histórico sexual, as frustrações e revezes afetivos influem na capacidade orgástica. Portanto, a menos que haja a interferência de uma fraca comunicação sexual, conflitos no relacionamento, uma experiência traumática (por ex., estupro), um Transtorno do Humor ou uma condição médica geral, há grande probabilidade da mulher comum e anorgasmática vir a ter orgasmos com o passar do tempo. Quando a disfunção orgástica ocorre apenas em certas situações, uma dificuldade com o desejo sexual ou com a excitação sexual freqüentemente estão presentes, além do transtorno orgástico. Muitas mulheres aumentam sua capacidade orgástica, à medida que experimentam uma maior variedade de estimulação e adquirem maior conhecimento sobre seus próprios corpos.

Caso você se identifique com esses sintomas, procure ajuda de um profissional de saúde.
Para tratamento de Transtorno Orgástico Feminino ou Ausência de Orgasmo em Campinas, utilizo Psicoterapia corporal Reichiana, Hipnose e Regressão.


Orgasmo Obrigatório

Na década de 60, as mulheres lutaram por liberdade sexual, por ter direito ao prazer e por se emanciparem da repressão da família e da sociedade. Parece que deu certo, e deu certo até demais. 

Hoje, tanto as mulheres quanto os homens, são quase intimados a apresentar um bom desempenho na cama e a ter uma vida sexual obrigatoriamente ativa. É a revolução sexual às avessas.

Não ter vida sexual ativa, e bem ativa, passou a ser sinônimo de fracasso. Depois de dizer adeus aos preconceitos, às proibições, à repressão sexual, a sociedade parece viver numa espécie de ditadura do sexo.

Um exemplo disso é a obrigatoriedade do orgasmo, principalmente no caso das mulheres. Muitas fingem que chegaram ao ápice do prazer só para não correrem o risco de perder o parceiro, de serem consideradas mutiladas sexuais. As pessoas vivem querendo ser uma espécie de atletas na cama como, se estivessem participando de uma disputa onde o mais feliz será aquele mais permissivo, libidinoso, descontraído e sexualizados.

Quando a pessoa não consegue ter o desempenho esperado, tanto homens quanto mulheres, acabam se sentindo obrigatoriamente deprimidos, infelizes e frustrados. Essa baixa auto-estima se mostra mais contundente quanto mais a pessoa se queixa publicamente desses seus "defeitos".

O problema talvez seja o modelo e parâmetro culturalmente estipulado para que a pessoa se sinta feliz, independentemente dos próprios princípios, gostos, crenças e valores. Quem não obedece o modelo divulgado por certas "novelas" deve se sentir frustrado, retrógrado e infeliz.

Depois de muito tempo de repreensão da sexualidade, as pessoas, principalmente as mulheres, decidiram virar a mesa e o sexo com mais liberdade. O problema é que partiram do proibido diretamente para o obrigatório e o que era para ter sido uma revolução sexual, virou ditadura.

Na tentativa de se adaptar a tanta modernidade, surgem os conflitos pessoais. Muitas vezes, as pessoas adotam comportamentos que vão contra o que desejam, ou seja, acabam fazendo o que devem (culturalmente) de forma emancipada daquilo que desejam de fato. Ou acabam desejando aquilo que não devem. Antigamente as mulheres eram coagidas a permanecerem virgens até o casamento mas hoje, a adolescente que ainda não perdeu a virgindade é questionada pelas amigas e até ridicularizada.

Mas nem todas as pessoas cedem a essa pressão cultural externa. Para aqueles que aderem à obrigatoriedade da vida sexual ativa e cheia de orgasmos, porque de fato é isso que querem, não há problemas. Aqueles que não são, em suas intimidades, sexualmente ávidos mas têm determinadas características de personalidade que as levam a ter um comportamento excessivamente preocupado com o que se espera delas, ou excessivamente preocupado com o que vão pensar delas, a possibilidade de terem conflitos é maior.

As pessoas muito preocupadas em terem desempenho sexual de acordo com os padrões vigentes, na verdade, se acostumam a atender uma cobrança não apenas externa, da cultura, mas também interna, de sua própria ansiedade em satisfazer as expectativas dos demais.

Caso você se identifique com esses sintomas, procure ajuda de um profissional de saúde.
Para tratamento de Frigidez ou Desejo Sexual Hipoativo em Campinas, utilizo Psicoterapia corporal Reichiana, Hipnose e Regressão.
Fonte: Veja ed. 1692- 21/03/2001